Sobre privilégios, diversidade e viagens

Este texto levanta uma questão extremamente complexa. Felizmente, tem-se falado bastante sobre reconhecermos nossos privilégios, mas para algumas pessoa essa é uma tarefa ainda muito difícil.

O relato que você vai ler mostra de forma clara como podemos compreender nossas posições dentro da sociedade a partir de fatores que não podemos controlar – como a família em que nascemos, nosso tom de pele, nosso gênero.

É um exercício enorme de reflexão que ruma em direção à empatia e à compaixão, por toda e qualquer pessoa, mas principalmente por aqueles que estão, socialmente falando, alguns passos atrás de nós.

As palavras a seguir foram publicadas no artigo What My White, Heterosexual, Educated, First World Privilege is Teaching Me About Empowerment, por Jenn Sutherland-Miller.


“Eu sou uma pessoa imensamente privilegiada.

Foi estranho ficar em pé , ombro a ombro com 50 estranhos em um saguão do Centro de Convenções de Oregon, nos espremendo para que todos tivessem espaço. Olhando para a esquerda e direita, eu imaginei quem eram essas pessoas, porque estavam ali e porque tinham se atraído por uma atividade sobre privilégios.

Pediram para que déssemos as mãos, então nós demos (…) A voz era alta e forte. (…) Ele leu estoicamente, claramente, com propósito, sem pressa, dando às palavras o peso que mereciam. Concedendo seriedade às perguntas que devíamos responder com nossos próprios corpos.

  • “Se seus ancestrais vieram para os EUA à força, dê um passo para trás.”
  • “Se seus pais, ou guardiões, frequentaram a universidade, dê um passo à frente”
  • “Se você já tentou mudar sua fala ou seus gestos para ganhar credibilidade, dê um passo para trás”
  • “Se você pode dirigir descuidadamente, sem ouvir comentários sobre o seu gênero, dê um passo à frente ”
  • “Se você tem dias de folga para seus feriados religiosos, dê um passo à frente”
  • “Se você alguma vez viajou para o exterior, dê um passo à frente”
  • “Se você foi criado por um pai ou mãe solteiro, dê um passo para trás”

No início, eu estava rindo, nervosismo eu suponho. Mas então, a medida que os braços se esticavam até o momento em que a corrente se quebrava, o cômodo ficou em silêncio.

As perguntas continuavam:

  • “Se você já foi vítima de abuso sexual, dê um passo para trás”
  • “Se você já teve uma empregada, um jardineiro, ou serviço de limpeza, dê um passo à frente”
  • “Se você tem sotaque estrangeiro, dê um passo para trás”

Algumas pessoas se moviam para frente, outras para trás. Nós olhamos ao redor, uns aos outros, como se estivéssemos estratificados pelo saguão. Uma mulher continuamente se movia para trás, olhando para frente e não demonstrando qualquer emoção.

A Caminhada do Privilégio (The Privilege Walk) é uma atividade feita para ressaltar coisas que não damos valor, coisas que muitos de nós nem sequer pensamos a respeito, coisas que simplesmente “são”, mas que fazem toda a diferença. É uma ferramenta. Uma maneira de objetivamente medir onde você está em um espectro, como você se compara com as outras pessoas dentro de um ambiente particular.

É um lembrete visual de algo que nós já sabemos, mas não discutimos o suficiente: homens brancos em geral terminam primeiro, mulheres negras com frequência terminam por último, qualquer outra orientação além de cisgênero-hétero é menos privilegiada e o acesso à educação importa muito.

Quando as pessoas pararam de se mover, não se ouvia um pio. Eu olhei pelo cômodo e notei algo interessante: das mulheres que estavam lá, eu era a que estava mais adiante. Ao meu redor haviam homens, todos caucasianos. Na outra ponta do saguão, havia só mulheres, e a variação de tons de pele do ambiente parecia uma caixa de lápis de cor, organizada a partir do mais claro para o mais escuro.

Eu pensei muito sobre essa experiência pelos próximos seis meses. O conceito e a discussão sobre privilégios não é novidade para mim. É um assunto que examinamos por vários lados quando vivemos e viajamos conscientemente por lugares que têm uma drástica desigualdade social.

Uma das razões para fazermos isso é para que nós e nossas crianças tenham um entendimento do que é ser excluído fisicamente, lidar com uma língua difícil, ser marcado instantaneamente como um estrangeiro, conviver com diferenças políticas e religiosas, e ser discriminado por cor, nacionalidade ou gênero.

Claro que apenas a possibilidade escolher ir viajar já demonstra privilégio, pois viajar é um privilégio.”


A história acima aconteceu nos EUA, mas poderia ser reproduzida com muita semelhança no Brasil. Você consegue imaginar-se claramente nesse experimento?

Você consegue aplicá-lo quando viaja? Mesmo que seja para outra região do país, você enxerga com exatidão como podemos ter ou não alguns privilégios porque vivemos em um mundo discriminatório?

É muito complicado falar sobre privilégios, pois esse é um assunto extremamente relativo e que deve muitas vezes ser tratado de forma específica, e não generalista.

Geograficamente falando, quando ponderamos a respeito de culturas, observamos que de fato há uma valorização de nações norte-americanas e europeias, em detrimento das latino-americanas e africanas, por exemplo. E podemos levar esse procedimento a escalas cada vez menores, considerando os países de um continente, os estados de um país, as cidades de um estado, os bairros de uma cidade… o processo é ilimitado.

Aqui no “Eu Viajo, Ela Viaja”, a questão de diferenças de gênero são tratadas com frequência, muitas vezes para ressaltar o quanto viajantes mulheres têm sua liberdade tolhida, justamente por causa desse prisma dos privilégios.

E mesmo entre nós, mulheres, é importante reconhecer que variáveis como classe social, cor e opção sexual nos diferem umas das outras nos colocam alguns “passos” à frente ou atrás.

Reconhecer privilégios é um trabalho árduo, pois isso demanda que voltemos nossa atenção para certas coisas que parecem banais em nossas vidas – como um casal hétero que pode demonstrar carinho em locais públicos sem medo de agressão, uma pessoa branca que não é abordada por seguranças em estabelecimentos,  um homem que pode andar pela rua sem receber comentários assediadores, etc.

A questão é, uma vez que reconhecemos esses privilégios, o que fazemos com eles?

No texto de Jenn, ela discute a respeito de incorporar seus privilégios, no sentido de usá-los para tratar do assunto publicamente e conscientizar pessoas que estejam numa posição semelhante à sua.

Como exemplo, ela cita um projeto chamado White Men as Full Diversity Partners, no qual homens brancos que têm posições de liderança são encorajados a criar e sustentar culturas de inclusão em seus ambientes de trabalho. O objetivo dessa “ação educativa” pode até parecer algo óbvio para pessoas que já se abriram para importância da representatividade, mas acredite, ela ainda é necessária.

Um bom ponto de partida para reconhecermos nossos privilégios é questionarmos a nós mesmos. Em relação a viagens, algumas perguntas que podemos fazer são:

  • De que maneira utilizo meus privilégios quando viajo?
  • Eu poderia agir de uma forma mais respeitosa e tolerante com as pessoas de outras culturas?
  • Eu deixo que meus preconceitos me impeçam de fazer novas amizades?
  • Eu sou capaz de exercer a empatia com as pessoas que tiveram uma criação diferente da minha?
  • Eu posso conversar sobre diferenças religiosas, políticas e culturais sem tentar impor a minha opinião o tempo todo?
  • Eu sou capaz de ouvir as palavras de outras pessoa sem ficar menosprezando suas convicções ou valores?
  • Eu me empenho em argumentar contra comentários preconceituosos de outras pessoas?
  • Eu consigo me equilibrar entre valorizar minha cultura de origem e respeitar as culturas de outras nações?
  • Eu posso ter feito algum comentário que pode ter sido ofensivo para outra pessoa, ou legitimou algum privilégio que eu tenho?

É através dessa postura de enxergar com mais clareza e de nos empenharmos para causar o mesmo efeito nas outras pessoas que podemos utilizar nossos privilégios para provocar mudanças.

Por exemplo, eu sempre digo que o feminismo precisa da voz do homem principalmente dentro dos círculos masculinos, pois são eles que promovem uma transformação de dentro para fora. Toda vez que um homem usa seu privilégio para apresentar um novo ponto de vista para outro homem, faz com que os passos que nos separam por gênero fiquem um pouco mais curtos.

Reflexão e consciência são as duas chaves para assumir uma postura menos segregativa em relação às outras pessoas. Essas transformações não são fáceis, mas representam o início da construção de um mundo mais equânime e empático.

E você, já refletiu alguma vez  sobre esse assunto?

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